Emergências Complexas e Desastres Naturais: O Apelo da Turbulência.
Sumário: Procede-se à caracterização de alguns eventos históricos recentes. O critério usado para a escolha destes eventos baseia-se no impacte que os caracteriza, sobre o bem-estar de populações, um pouco por todo o mundo. Dedica-se um esforço grande ao alinhavar de razões para o estabelecimento de uma linguagem comum, poderosa quanto baste para exprimir o conceito da complexidade inerente às dinâmicas que conduziram a tais eventos. Argumenta-se no sentido da definição de uma classe de equivalência, sob isomorfismo (com respeito às estruturas subjacentes e que são responsáveis pelas analogias dinâmicas observadas), onde se possam incluir todos os sistemas envolvidos nos eventos referidos. Sugerem-se, inequivocamente, algumas questões de natureza moral, mas enfatiza-se, sobretudo, a tese de que é na turbulência que reside a chave para uma futura, efectiva compreensão destes eventos.
«Nós, abaixo assinados, membros de pleno direito da comunidade científica mundial, vimos por esta via advertir a Humanidade daquilo que está para suceder. É urgente realizarmos uma vasta mudança nas nossas relações com a Terra e com a vida à sua face, caso seja nossa vontade evitar grandes misérias humanas e uma mutilação
irreparável do nosso lar global, neste planeta.» (1)
«Onde está a ciência, perguntamos nós, que possa analizar, explicar e prever correctamente um fenómeno tão complexo e multivariado como o da mudança global? Onde e quando irá irromper a próxima bolsa de fome humana, e como poderemos nós agir com anos ou décadas de antecipação para o evitar?» (2)
I
O tema que aqui propomos para reflexão é, nas suas linhas gerais, aquele que a leitura das duas citações feitas (tradução nossa) certamente sugere com clareza suficiente.
Vamos discuti-lo procurando mostrar que a mudança cuja necessidade se afirma ser imperiosa é uma mudança que está, afinal, já em curso. Mas fá-lo-emos numa disposição de optimismo moderado, já que, sobre a intencionalidade que
dirige uma tal mudança, nos não parecem ser possíveis ou seguros senão alguns juízos de prudência.
Esta nossa reserva não deriva, note-se, do facto de as novas ciências da complexidade -designação genérica para o corpo de conhecimentos e de técnicas que se configuram como a única resposta possível às perguntas feitas na segunda citação-, estas novas ciências, dizíamos, se apresentarem ainda em estado nascente, sob contornos algo indefinidos. A sua simples existência constitui, aliás, um sinal de esperança, não obstante o modo como muitas comunidades científicas locais parecem, confortável e preguiçosamente, querer resguardar-se dessa procela em que se rasgam novos horizontes ao conhecimento humano, mantendo, perante a produção de centros de saber como, por exemplo, o Instituto de Santa Fé (Novo México,
EUA), pioneiro nestes estudos (3), uma atitude de quase total alheamento.
Deixemos, porém, estas questões para uma outra oportunidade. A moderação com que encaramos as disposições, fundamentalmente políticas, que parecem assistir às mudanças sociais, económicas, físicas e ecológicas que, globalmente, nos afectam, exige, para que possa ser compreendida, uma formulação rigorosa daquilo que constitui o enquadramento destas últimas. Seja-nos então permitido começar por precisar a terminologia que já introduzimos.
Há, no destino de milhões de seres humanos actualmente à face do planeta, algo
que, tragicamente, é comum. As linhas de força por que se regiam as respectivas vidas sofreram uma disrupção brutal, causada por uma perversa
interacção entre política e pobreza, a qual, não poucas vezes, tem degenerado na eliminação sumária e no extermínio maciço. Estas pessoas são, ou foram, vítimas daquilo a que chamamos emergências complexas
(4): um conjunto nefasto de circunstâncias, quase sempre associado ao colapso de estruturas sociais tradicionais e à consequente irrupção de conflitos étnicos e de nacionalismos exacerbados, para cujo agravamento concorrem, por vezes, os chamados desastres naturais, isto é, toda aquela sorte de acontecimentos, supostamente naturais, que referimos como tufões, sismos, secas, pragas, inundações, etc, mas que, em rigor, são antes o resultado da interacção espacial de processos ambientais extremos como estes e populações ou comunidades que lhes são
vulneráveis. Esta vulnerabilidade é essencialmente determinada pela respectiva pobreza (5).
Não deve por isso surpreender-nos, a atenção especial que os países em desenvolvimento merecem, nas resoluções da Assembleia Geral das Nações Unidas que, entre 1987 e 1989, declaravam os anos 90 como 'Década Internacional para a Redução dos Desastres
Naturais' (6).
É talvez observando as nações mais desfavorecidas, que melhor se reconhece o facto de que um crescimento sem controlo adequado, queremos dizer, sem desenvolvimento, é um processo que implica uma vulnerabilidade crescente e surge, por isso, actualmente, associado a um potencial escalante para perdas catastróficas, em vidas e bens.
Nesta perspectiva, tanto emergências complexas, como desastres naturais são entendidos como sequências de processos e de acontecimentos. O mesmo vale para o modo como concebemos o fenómeno 'fome humana': uma sucessão de processos e de acontecimentos caracterizada por uma redução na existência de bens alimentares, e que conduz a um aumento substancial e
disseminado da mortalidade nos grupos mais vulneráveis das comunidades que afecta (4), Assim sendo, temos que, em particular, a irrupção duma bolsa de fome humana pode ser pensada como aquele momento crítico, no decurso duma tal sucessão, que se atinge pela ocorrência duma flutuação grave dos valores que parametrizam a distribuição de bens primários numa comunidade, e que, portanto, se constitui como uma violação escandalosa de um dos princípios basilares da justiça: o princípio da diferença, segundo o qual, as desigualdades económicas e sociais devem ser distribuídas de modo a que se possa esperar que elas sejam em benefício de todos
(7).
Esta situação ofende a nossa dignidade, enquanto seres humanos, e apela à organização imediata duma responsabilidade colectiva pelos efeitos globais das nossas actividades económicas, sociais, tecnológicas e outras
(8). Porque as violentas flutuações detectadas nos sistemas palco, ou suporte das emergências complexas que testemunhamos denunciam a ocorrência, melhor dizendo, são, elas próprias, uma manifestação clara da ocorrência de fenómenos cooperativos, conforme alguns estudos físico-estatísticos de modelos para difusão de informação (no caso, económica e política) em populações sugerem (9). Este é, por exemplo, o caso quando um fenómeno colectivo e cooperativo, como é a formação de um sentimento generalizado de pessimismo acerca do estado de uma economia, surge de tal modo associado (causalmente) à ocorrência de recessões, que se torna possível rejeitar a hipótese de que ele não afecta o respectivo Produto Nacional
Bruto. Note-se que este exemplo diz respeito a um estudo sobre a evolução da economia americana, durante um período de cerca de trinta anos (10).
A nossa justa indignação perante este estado de coisas é o primeiro sinal de que nos dispomos a crescer em humanidade. A sensibilidade das
comunidades a que pertencemos ao apelo formulado será, por sua vez, o primeiro sinal de que, também elas, se prestam a crescer em humanidade. Este crescimento não é facultativo (11).
II
O que devemos fazer?
III
As situações graves que acima denunciámos são situações complexas que se configuram, ou que emergem, no decorrer da evolução dos sistemas físicos (ou outros) que lhes servem de suporte. Uma evolução que parece orientada para regiões críticas dos respectivos espaços de fase, mas que procede nos termos duma parametrização que nos escapa.
Não obstante, é possível a identificação de algumas características gerais comuns a todos estes processos e aos sistemas neles envolvidos. A mais evidente é, talvez, a de que a parametrização referida exige, para que a possamos conceber, o recurso à consideração de espaços de fase com dimensão infinita. É o que se passa com os sistemas dinâmicos globais de natureza física, como sejam a atmosfera e a crosta terrestre, mas também com o ecossistema planetário, a economia mundial e a estrutura social da espécie humana (rede social humana).
Uma outra característica comum a estes sistemas, mas cuja formulação coloca problemas delicados, consiste no facto de que todos eles protagonizam evoluções que, de forma mais ou menos espetacular, são turbulentas; todos eles se afirmam como sistemas com capacidade para realizar o fenómeno de turbulência. O problema com esta formulação reside na inexistência duma teoria rigorosa para a turbulência. Não dispomos sequer duma definição universal para o respectivo conceito. Isto não impede, contudo, que avancemos com uma definição provisória, qual hipótese de trabalho, capaz de reunir consenso e de conduzir a bons resultados, qual seja, pensamos, a de turbulência como dinâmica típica de sistemas cujo número de graus de liberdade efectivos não tem limite superior e varia no tempo.
Note-se que esta definição é suficientemente geral para abranger os chamados regimes de turbulência totalmente desenvolvida, já que a evidência experimental da constituição de estruturas coerentes nos sistemas implicados, mesmo quando estes regimes são atingidos, constitui prova de que o respectivo número de graus de liberdade varia no tempo.
A complexidade emergente que podemos reconhecer, por observação dos sistemas que mencionámos, é, no caso da economia mundial ou da rede social humana, um fenómeno de classificação recente, se não mesmo ainda em vias de definição (12), e que resulta da já consumada globalização dos processos de comunicação. Quanto aos restantes sistemas, a novidade, se alguma, está somente na nossa aquisição de sensibilidade para o facto de que, por razões como as que apontámos acima, se torna urgente desenvolver teorias que nos permitam lidar coerentemente com a respectiva complexidade. Entretanto, todos eles se influenciam mutuamente: constata-se que as
flutuações económicas induzidas por actividades especulativas nos meios financeiros podem, eventualmente, alterar normas e estruturas sociais, ou modificar os padrões de utilização dos recursos naturais existente num dado ecossistema (13); tal como se constata que um pico na actividade sísmica numa dada região do globo (Kobe, Japão) pode,
pelas convulsões económicas que causa, alterar de tal modo a configuração do mercado de futuros, que uma instituição financeira sediada nos antípodas seja levada à falência (Barings); tal como, ainda, se constata que a injecção de resíduos industriais líquidos, a grande profundidade e
a alta pressão, pode induzir padrões de actividade sísmica em regiões anteriormente inactivas
(14,15).
Esta trama de interacções não torna o nosso problema intratável, mas convida ao uso de prudência e de humildade na sua abordagem.
Adoptamos por isso a estratégia que consiste em ignorar temporariamente que elas ocorrem. Vamos isolar um destes sistemas e prosseguir, estudando-o, na tentativa de estabelecer e modelizar, inspirando-nos apenas nele, aquilo que é comum a todos. Há-de ser-nos concedido que este isolamento não reduz a complexidade do problema: o sistema que vamos considerar mantém, ainda assim, todos os ingredientes para que lhe possamos aplicar a definição de turbulência que adoptámos. Por outro lado, este método permite-nos contornar as dificuldades linguísticas com que depararíamos caso tentássemos a construção dum modelo comum, representativo de todos os sistemas, logo de início: as linguagens técnicas desenvolvidas no âmbito das disciplinas do saber que, tradicionalmente, vêm tomando estes sistemas como objecto dos respectivos estudos, não se equivalem, e não dispomos, ainda, duma metalinguagem que as integre.
Considere-se, então, o caso da dinâmica de tensões associada à estruturação da crosta terrestre em sistemas de falhas. Trata-se de um regime de turbulência de sólidos (16) que, na literatura especializada, vem sendo descrito como regime de criticalidade auto-organizada (17). Esta expressão (indexadora dum conceito que, tal como o de turbulência, tem contornos indefinidos) foi cunhada para descrever regimes protagonizados por sistemas que, sem necessidade de intervenção externa, evoluem espontânea e permanentemente na vizinhança de pontos críticos. No caso em apreço, o seu uso traduz o reconhecimento de que a dinâmica de auto-organização dos sistemas de falhas encontra, nos campos de tensão que obedecem ao critério de ruptura quase por toda a parte, os seus estados atractores (18).
Mas, se, globalmente, e em virtude do que acabamos de dizer, a crosta terrestre se apresenta como um sistema duma complexidade irredutível, já o mesmo não se passa a nível local, ou regional, envolvendo apenas um, ou poucos sistemas de falhas. Com efeito, dispomos de evidência experimental que aponta para um carácter caótico determinista, logo, com poucos graus
de liberdade, como sendo o mais compatível com a dinâmica actual de certos sistemas regionais de falhas (Califórnia, Grécia, Japão e Irlanda) (19). A complexidade do sistema à escala global pode então ser pensada, por um lado, como resultante do acoplamento induzido entre as diferentes dinâmicas caóticas locais pela tectónica de placas, e por
outro lado, como síntese da trama de interacções que os sistemas de falhas estabelecem entre si e que são veículadas pela propagação de ondas sísmicas. É importante notar que a rede de
comunicações que assim se desenvolve é uma rede cujo suporte físico podemos caracterizar como sendo um meio activo, não linear e possuidor de fontes internas de energia elástica acumulada, cuja libertação pode ser disparada por efeito de quaisquer pequenas
perturbações externas, como sejam, por exemplo, as induzidas por ondas sísmicas, geradas naturalmente em
regiões remotas, ou por fontes sísmicas artificiais (20).
Ora, se, no caso da
tectónica de placas, temos que nos haver com uma escala de tempo que torna razoável modelizar o acoplamento induzido como constante, temos, todavia, que o mesmo não sucede para a interacção entre sistemas de falhas, ou entre sistemas de falhas e actividades humanas como a escavação de minas, a extracção de petróleo ou de gás natural, a construção de barragens, etc (21). Temos então que reconhecer que os canais de comunicação necessários ao estabelecimento de tais
interacções nem sempre estão activos. Consequentemente, a emergência dos efeitos cooperativos associados a estas
últimas, e que se manifesta pela constituição de estruturas espaço-temporais coerentes, varia no tempo. Por outras palavras, o
número de graus de liberdade do sistema varia no tempo.
A fenomenologia, assaz rica, que assim se descreve pode também ser classificada por recurso a um outro conceito fundamental: o conceito de caos espaço-temporal (22). A sua importância, dados os fins que temos em vista, deriva do facto de ele corresponder à designação geralmente adoptada para descrever o comportamento de certos modelos dinâmicos, como sejam,
as redes de aplicações caóticas globalmente acopladas (de 'coupled map lattices'; o termo 'lattice' é inexacto, mas está consagrado pelo uso; são redes cujos nós seguem um regime caótico determinista interno que afecta, e é afectado, por todos os restantes).
Estes modelos, cuja dinâmica se simula numericamente com relativa facilidade, têm sido intensamente estudados nestes últimos anos, e com a seguinte, interessante consequência: descobriu-se que, uma vez estabelecido um adequado ajuste dos seus parâmetros internos, por forma a induzi-los a evoluir na sua assim chamada, fase parcialmente ordenada, eles protagonizam uma dinâmica que denotamos como caos erradicante (chaotic itinerancy), a qual reproduz, no essencial, o comportamento do sistema complexo em que centrámos a nossa atenção. Com efeito, uma vez atingida esta fase, estes modelos passam a evoluir de modo quase estacionário e a exibir, espontaneamente, fenómenos de auto-organização, nos termos duma dinâmica cujo número de graus de liberdade efectivos varia no tempo. Isto sucede porque os atractores que, de certo modo, referenciam cada modelo nos respectivos subespaços de fase, subsistem apenas na forma de ruínas através das quais ele deambula, protagonizando fenómenos de crise em cujo decurso se estabelecem as conexões necessárias à sua transição entre subespaços de fase com dimensões diferentes. A ocorrência das comutações que assim se realizam, entre atractores, pode ser induzida externamente mediante a perturbação duma só dinâmica local, e ter, não obstante, efeitos remotos e globais (23).
É justamente por esta última razão que o argumento que temos vindo a desenvolver adquire maior relevância. A possibilidade, assim evidenciada, de incluir numa mesma classe de equivalência os sistemas complexos modelo e modelizado
(a rede de aplicações e a crosta terrestre), pelo que diz respeito ao facto de as respectivas dinâmicas poderem ser moduladas globalmente pela via do recurso a pequenas perturbações locais, é um primeiro passo no sentido do estabelecimento duma engenharia de sistemas complexos. O passo seguinte, obviamente, é o que se dá pela averiguação das modalidades em que estas perturbações locais, e as consequentes alterações globais, podem ser executadas em ordem ao estabelecimento de determinadas trajectórias de
fase e não de outras, através dos diferentes subespaços. Este é, no fim e ao cabo, um problema de controlo de caos, a respeito do qual muito se pode dizer. Entretanto, e porque a modulação de regimes dinâmicos em que nos estamos a empenhar passa, importa
relembrá-lo, pela atenuação de certas flutuações críticas em sistemas complexos que não apenas o que se define pelas falhas sísmicas na crosta terrestre, vamos antes discutir a incidência que a nossa argumentação tem na análise daqueles outros em que também estamos interessados.
Para este efeito, haveria que começar por estabelecer, com rigor, uma migração de conceitos entre os diferentes domínios disciplinares do saber científico actual. Neste sentido, que é o da promoção da interdisciplinaridade e da não compartimentação dos saberes, muito trabalho tem sido realizado pelos economistas. É de facto notável o modo como a construção de modelos e de teorias económicas tem, nos últimos dez anos, vindo a ser beneficiada com a introdução de conceitos oriundos da física estatística e da teoria dos sistemas dinâmicos não lineares (24).
A aplicação destes à análise das sucessões cronológicas geradas pelas economias e pelos mercados financeiros teve como consequência a detecção, nelas, de não linearidades e de caos determinista. É certo que, no caso da detecção de não linearidades, se pode dizer que tal não constitui surpresa, mas, pelo que diz respeito ao caos determinista, o caso é outro. O anúncio da detecção de evidência experimental em favor da presença de regimes caóticos em dinâmica económica tem sido recebido com moderação (25). Podemos mesmo dizer que não há consenso a este respeito. Isto acontece, em parte, porque os dados experimentais disponíveis para análise são
escassos (sucessões cronológicas limitadas), o que torna a aplicação dos algoritmos de inversão um problema delicado, senão irresolúvel (26).
A maior dificuldade, porém, consiste no facto de que, para os economistas, um processo estocástico é
indistinguível dum processo caótico de alta dimensão (24,26). E não há, obviamente, critério universal que permita afirmar que, se for rejeitada a hipótese duma dinâmica caótica com dimensão inferior a N, digamos, então se deva concluir pelo carácter aleatório do processo que esteja em análise.
Ora, se a economia é um sistema complexo, espacialmente distribuído, então, há que concedê-lo, para além das flutuações irregulares que exibe no tempo (seja tal irregularidade caótico-determinista ou não), ele manifesta-se também pela ocorrência de comutações de fase que lhe são endógenas; quer isto dizer que as próprias equações que regem a sua evolução são alteradas, segundo regras internas, no decurso de um processo que é despoletado localmente e que culmina com a transição do sistema entre regiões distintas do respectivo espaço de fase, sendo que, a uma tal transição, se associa uma alteração qualitativa do seu comportamento (27). Dito por outras palavras, o sistema complexo economia evolui através de subespaços de fase com dimensões distintas. Donde se segue que, em primeiro lugar, só esporadicamente poderemos esperar observar um comportamento caótico de baixa dimensionalidade, e, em segundo lugar, que devemos reconhecer no sistema o potencial para que tal comportamento se manifeste (28).
Estas conclusões são corroboradas por uma notável diversidade de modelos, independentemente do tipo de economia a que se aplicam (socialista ou de mercado), ou da faceta ou aspecto parcial que os inspirou (29). Merece especial reparo a circunstância de que a respectiva optimização decorre, por vezes, nos termos dum ajuste de parâmetros executado com vista à obtenção de comportamento caótico (30).
Realizado este modesto esforço no sentido de tornar verosímil a inclusão da economia global na classe de equivalência que constituimos, com o sistema complexo crosta terrestre e com
as redes de aplicações caóticas acopladas em fase parcialmente ordenada (equivalência,
note-se, sob isomorfismo relativo às estruturas internas que, em cada sistema, são responsáveis pela fenomenologia comum observada), viramos agora a nossa atenção para o ecossistema global.
A possibilidade de incluir este último na mesma classe de equivalência dos primeiros é susceptível duma interessante motivação:
Considere-se o caso duma rede computacional que cresce até atingir uma dimensão global (a Internet, por exemplo). Se os programas que nela correm forem interpretados como agentes, então, o problema duma alocação de recursos em seu benefício é análogo ao problema da atribuição de recursos aos elementos produtivos duma economia. Equivale isto a dizer que o crescimento das redes computacionais as torna semelhantes a economias de mercado. Por outro lado, se encararmos uma dessas redes como uma comunidade de processos concorrentes, tomada de perspectiva esta que, aliás, é perfeitamente lícita, então ela configura-se como um verdadeiro ecossistema (computacional) (31).
Seja como for que as queiramos encarar, o importante é que, em qualquer dos casos, ecossistemas computacionais ou mercados computacionais, a respectiva dinâmica exibe um comportamento oscilatório e caótico. Não menos significativo é também o facto de nelas (na Internet, em particular) se registar um fenómeno característíco das dinâmicas de críticalidade auto-organizada, como seja, o chamado ruído em 1/f (32).
Certamente que, procedendo esta nossa argumentação por analogia, ela não constitui prova da possibilidade de inclusão do ecossistema global na classe de equivalência já constituida. Mas permite-nos receber com naturalidade a notícia de
que, por outras vias, muitos estudos independentes têm conduzido a conclusões que apontam, sem grande margem para dúvidas, nesse sentido:
Face ao ecossistema global, estamos, na verdade, perante um sistema complexo que evolui espontaneamente em direcção aos pontos críticos do respectivo espaço de fase e que, de algum modo, consegue como que estabilizar na sua vizinhança. E isto verifica-se sem que haja perda da sua capacidade para, ao menos esporadicamente, realizar o colapso da complexidade assim manifestada, passando a evoluir nos termos duma simples dinâmica caótico determinista (33).
É interessante observar que o argumento sobre redes computacionais acima introduzido poderia,
mutatis mutandis, ter sido usado para motivar antes o que primeiro dissemos a respeito da economia global; as teses apresentadas corroboram-se mutuamente.
IV
A abordagem que estamos a fazer da problemática que motivou todas estas nossas reflexões, conquanto possuidora duma forte componente descritiva, foi, recordamo-lo, induzida pela consciência dum dever de acção. Uma consciência que se agudiza pela constatação de que não somos, neste teatro de operações em que evoluem os diversos sistemas complexos referidos, meros espectadores.
Somos observadores participantes cuja capacidade de controlo sobre os processos envolvidos, e envolventes, é, quanto muito, uma capacidade para moderar, modular ou intensificar o grau da respectiva participação. Mas quão poderoso e delicado é este dom:
Estabelecida a equivalência mútua dos sistemas complexos analizados, isto é, estabelecida com eles uma classe de equivalência sob isomorfismo relativo às estruturas (quaisquer que sejam) responsáveis pelas caracteristicas dinâmicas que evidenciámos serem comuns, seja
certa rede de aplicações caóticas globalmente acopladas o representante da classe.
Admitamos a existência, entre esta rede e um, ou mais observadores participantes, de tantos canais de comunicação quantos julgarmos convenientes (em número finito). O fluxo de informação que por eles flui,
da rede para o observador, entendido como produção discursivo semiótica da
primeira, pode pelo segundo ser interpretado nos termos duma dinámica simbólica, queremos dizer, em particular, nos termos de um 'algoritmo de inversão' que lhe permite reconstituir a termodinámica abstracta do sistema ou subsistema que gerou o fluxo (34). A capacidade semiótica de interpretação do algoritmo permite, além desta extracção das características
termodinâmicas essenciais da dinâmica caótica fonte de informação, que o observador identifique o regime particular por ela seguido no momento da emissão, isto é, por exemplo, se a emissão foi feita no decurso duma transição entre subespaços de fase (35).
Admitamos agora que os canais de comunicação existentes, permitindo fluxos de informação nos dois sentidos, constituem um suporte físico adequado ao exercício de pequenas perturbações sobre as
dinâmicas locais da rede, nos moldes em que o nosso observador participante possa desejar executá-las.
Torna-se-lhe então possível intervir de modo selectivo na dinâmica do sistema, de modo a orientar a respectiva trajectória de fase no sentido que for julgado conveniente, e sem que, por esse motivo, o sistema seja destituído das suas características fundamentais.
Com efeito, as técnicas de controlo de caos, desenvolvidas desde 1990, beneficiam já de numerosas confirmações de eficácia, tanto numérica como
experimental (36). Quanto ao trabalho teórico que conduziu ao seu desenvolvimento, interessa-nos especialmente pelas suas seguintes consequências: o controlo sobre a evolução caótica dos sistemas é garantido independentemente do tipo de caos em presença, bem como da dimensionalidade dos atractores que lhe são subjacentes (37). O mesmo vale para o caso, que é o nosso, em que a dinâmica local a controlar se encontre inserida num ambiente que a possa afectar de modo irregular (38).
Pode então suceder que, ao analizar a sucessão cronológica definida pela produção semiótica dum certo número de dinâmicas locais, o nosso observador constate o gradual desenvolvimento duma dinâmica simbólica (entenda-se, dum certo conjunto de órbitas simbólicas) que seja indiciador de que, no sistema termodinâmico abstracto subjacente, se desenvolve uma determinada flutuação. O observador reconhece este processo como a formação duma estrutura coerente, logo, como uma redução (local) progressiva do número de graus de liberdade efectivos, logo, como uma possível transição entre determinados subespaços de fase distintos. Na qual poderá estar interessado ou não.
Suponhamos que não está. Suponhamos que lhe interessa antes uma outra transição, dirigida para um outro subespaço de fase, na medida em que esta última, a consumar-se, se traduz pelo amortecimento dos efeitos indesejáveis que, antecipa
ele, possam ser causados pelo crescer da flutuação que detectou.
A indução das dinâmicas locais observadas, numa trajectória de fase consentânea com o regime caótico que melhor serve os objectivos do nosso observador participante, passa, então, pela indução dessas dinâmicas no sentido da geração das órbitas simbólicas cuja termodinâmica subjacente ou, melhor dizendo, cujo processo termodinâmico subjacente vai no sentido de relaxar a flutuação inicial. Ora, a
exequibilidade de um tal controlo fino de dinâmicas caóticas já foi alvo de demonstração experimental (39).
Vejamos então que incidência têm estas ideias no estudo dum sistema complexo acerca do qual ainda pouco dissemos: a rede social humana global.
Também neste caso se constata o progresso que tem sido feito, na compreensão dos fenómenos objecto de análise,
pela importação de conceitos provenientes da fisica estatística e da teoria
dos sistemas dinâmicos não lineares.
Este progresso é, para nós, particularmente significativo na medida em que permite que seja atingida uma relativa compreensão do modo como, por exemplo, o
impacte social atingido por um grupo de políticos se pode manifestar pela emergência de processos colectivos de auto-organização, ou de caos, quando os processos adaptivos de tomada de decisões em orgãos de poder integram, melhor ou pior, o conflito sempre existente entre a implementação de
políticas e os estudos de previsão que as sugerem, apoiam ou contraditam (40).
Adquirida esta perspectiva, damo-nos conta de que uma nova luz é lançada na compreensão do modo como certas pequenas perturbações locais da rede social humana, como sejam, as sondagens à opinião pública, vão contribuindo para instituir os quadros de referência relativamente aos quais se afirmará depois o sentimento de um eleitorado (41). E damo-nos também conta de como é suspeita a imputação de erro que lhes é feita, a posteriori, quando as suas (alegadas) previsões se não realizam, como que branqueando a intenção que as poderá ter determinado. Porque a instituição destes quadros de referência altera, paulatinamente, a configuração assumida pelas preferências desse eleitorado relativamente ao espaço de alternativas políticas que lhe são propostas.
Ora, sob condições técnicas absolutamente nada restritivas, queremos dizer, que não são meras curiosidades académicas, pode então induzir-se o estabelecimento ocasional de um perfil de preferências adequado à ignição
de uma dinâmica caótica, nos termos da qual o eleitorado é arrastado segundo uma trajectória de fase que visita todos os conjuntos de alternativas, no espaço das políticas possíveis (42). A riqueza dos comportamentos que um sistema complexo, ou mesmo apenas caótico pode assumir garante, pois, que os diferentes subespaços de alternativas políticas, identificados ou marcados pelas diferentes ideologias porventura em confronto, são, todos eles, visitados, entenda-se, favorecidos ocasionalmente pelo sentimento dos eleitores.
Uma vez realizado este estado de coisas, estamos perante um sistema ao qual se aplica o método de controlo que acima apresentámos. Podemos induzi-lo a deambular no espaço de todas as alternativas, explorando moderadamente as possibilidades que nos oferecem. Mas podemos também provocar-lhe um bloqueamento de fase (phase locking) num subespaço favorecido por critérios quaisquer.
Assim se poderá compreender como candidatos, partidos ou coligações apresentados pelas sondagens como derrotados, à partida para um acto eleitoral, e nisto consiste a indução de um perfil de preferências que viabiliza a ignição duma dinâmica caótica, surjam depois, fechadas as urnas, como vencedores, em virtude dum certeiro e momentâneo bloqueamento de fase da dinâmica caótica induzida, no subespaço das alternativas políticas que são favorecidas ideológicamente pelos mentores dessas sondagens.
Ou talvez não.
Talvez os desenvolvimentos científicos que aqui procurámos expor não tenham ainda sido divulgados, ao ponto de despertarem o interesse e a cobiça de grupos
políticos ou financeiros. A este respeito, o mais prudente, pensamos, é guardar reserva. Até porque a metodologia de controlo por 'modulação' das trajectórias de fase de sistemas complexos oferece, ainda, dificuldades técnicas (como a recém-descoberta dependência sensível extrema a parâmetros e às condições iniciais (43)) que tornam a sua implementação muitíssimo delicada.
A superação destas e doutras dificuldades passa, em nosso entender, pelo estabelecimento das leis que regem as estruturas que, em cada um dos sistemas complexos aqui considerados, são responsáveis pela notável fenomenologia cuja classificação nos permite incluí-los numa mesma classe de equivalência. Mas este desenvolvimento teórico corresponde a um esforço que não queremos desenvolver aqui e agora.
Reflictamos.
A disposição de espírito que nos levou ao paciente arrolar de quantas ideias aqui foram expostas mantém, no essencial, a sua actualidade. Quaisquer que sejam as dificuldades, técnicas ou conceptuais, que se nos ofereçam no desenvolvimento da engenharia de sistemas complexos cuja proposta aqui esboçámos, elas são, perante a gravidade da situação que motivou o apelo formulado no início, menores.
Suponhamos que estão resolvidas. A nossa relação com o sistema complexo global é, então, a nossa relação com um mundo cuja trajectória de fase podemos orientar. Mas, em que sentido devemos fazê-lo?
A resposta a esta pergunta não será encontrada nas linhas cuja redacção agora vamos terminando. Destas, se deduz apenas o contexto em que nos foi dado formulá-la, incontornável e urgente. De nós, tem ela que brotar, e da generosidade com que for dada se aquilatará do seu valor.
Luís Borges
(1) Union of Concerned Scientists, 1992. in Patten, B.C., 1994. Ecological Sistems Engineering: Toward Integrated Management of Natural and Human Complexity in
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(7) Rawls, J., Uma Teoria da Justiça, Editorial Presença, Lisboa, 1993.
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